Outubro Rosa: O Papel Essencial do Assistente Social na Saúde da Mulher e Prevenção do Câncer de Mama
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O diálogo é um dos pilares da prática profissional, como em um momento de entrevista. (Créditos: imagem grátis do Canva). |
A visita domiciliar é, sem dúvida, um dos
instrumentos técnico-operativos mais emblemáticos e valiosos na prática do
Serviço Social. Ela permite ao profissional transcender os limites do
escritório e adentrar o universo de vida de famílias e indivíduos, proporcionando
uma compreensão mais holística e aprofundada de sua realidade. No entanto, o
Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), em sua incessante busca por uma
atuação profissional cada vez mais ética e alinhada aos direitos humanos, tem
promovido uma reflexão crítica sobre a terminologia e a abordagem dessa
prática. O objetivo não é invalidar o instrumento, mas aprimorá-lo,
transformando-o em uma ferramenta que não apenas investiga, mas que, acima de
tudo, respeita e fortalece a autonomia dos sujeitos.
A Evolução da Terminologia: Do Controle ao Diálogo
Historicamente, o termo "visita
domiciliar" pode estar associado a uma conotação de fiscalização ou
controle. Em um passado não muito distante, essa prática era, por vezes,
utilizada para verificar a "elegibilidade" de famílias a programas
sociais, ou para monitorar o comportamento de indivíduos, o que gerava uma
dinâmica de poder desigual entre o profissional e o usuário. O assistente
social, nesse contexto, poderia ser percebido como um agente fiscalizador, e
não como um facilitador de direitos.
É por isso que a proposta do CFESS de utilizar
"entrevista no domicílio" ou "entrevista no território" é
tão significativa. O termo "entrevista" resgata a essência dialógica
da profissão. Uma entrevista é uma conversa estruturada, com objetivos claros,
mas que se baseia no princípio da escuta ativa e na construção de um vínculo de
confiança. Ela sugere uma relação de colaboração, onde a troca de informações é
mútua e a voz do usuário tem centralidade. Ao invés de uma "visita"
que pode parecer unilateral, a "entrevista" pressupõe a participação
e o consentimento de ambas as partes.
Entrevista no Território: Expandindo a Compreensão da Realidade
A expressão "entrevista no território" é particularmente poderosa e inovadora. Ela amplia
a visão do profissional para além das quatro paredes da casa. Um assistente
social que conduz uma entrevista no território considera não apenas o ambiente
físico da residência, mas também o bairro, a comunidade, os recursos
disponíveis (ou a falta deles), as redes de apoio (formais e informais), as
dinâmicas sociais e culturais, e os desafios estruturais que influenciam a vida
da família.
Essa abordagem holística permite ao profissional
desenvolver uma análise social mais precisa e interligada com as múltiplas
dimensões da realidade. Um problema de saúde, por exemplo, pode estar
diretamente relacionado à falta de saneamento básico no bairro. Uma dificuldade
de acesso à educação pode ser reflexo da escassez de transporte público na
região. O assistente social, ao mapear o território, consegue identificar não
apenas as necessidades imediatas, mas também as raízes estruturais dos
problemas, o que possibilita a construção de estratégias de intervenção mais
eficazes e com maior potencial de transformação.
Além disso, a entrevista no território favorece a quebra de preconceitos. Ao invés de
julgar uma família com base apenas nas condições da moradia, o profissional
compreende que a realidade é um reflexo de um complexo arranjo social e
econômico. Essa perspectiva favorece a construção de uma atuação mais empática
e livre de julgamentos, fortalecendo a confiança e o respeito mútuo.
A Ética como Bússola da Prática Profissional
Independentemente da terminologia adotada, o CFESS é
categórico em reforçar que essa prática deve ser sempre norteada pelo projeto ético-político do Serviço Social. Isso significa que a
visita ou entrevista deve ser cuidadosamente planejada, com objetivos claros e
transparentes. O profissional deve comunicar ao usuário o propósito da ação, o
que será abordado e, principalmente, garantir que a privacidade e a autonomia
da família sejam integralmente respeitadas.
A coleta de informações deve ter uma finalidade
clara: subsidiar o planejamento de ações que promovam o acesso a direitos e o
fortalecimento da autonomia da pessoa. Jamais deve ser utilizada para fins de
controle, fiscalização ou julgamento moral. O sigilo profissional é um pilar
fundamental e a informação só pode ser compartilhada com o consentimento do
usuário, a não ser em situações legalmente previstas.
Em um mundo onde a privacidade se torna um bem cada
vez mais escasso, a postura ética do assistente social é crucial. A reflexão
sobre a terminologia e a metodologia empregadas na prática domiciliar ou
territorial reafirma o compromisso do Serviço Social com a justiça social, a
defesa dos direitos humanos e a construção de uma sociedade mais equitativa.
O assistente social, ao repensar sua atuação, age
como um agente de mudança, promovendo a dignidade e a autonomia dos sujeitos. A
visita domiciliar, ou melhor, a entrevista no território, continua a ser um
instrumento poderoso, mas agora com um novo significado: um significado de
respeito, de escuta e de transformação.
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pensa sobre essa evolução na prática profissional?
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